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a invasão dos smelters


como se temia

os fornos de alumínio começaram a chegar a esta costa do Índico.

E tudo indica que a invasão será sufocante - sobretudo se, aos de alumínio, somarmos os smelters de ferro, cobre, zinco, chumbo, etc.


segundo os alumineiros, para além de portos de águas profundas, o Índico africano oferece-lhes vantagens comparativas em termos de dois custos críticos - electricidade e mão de obra.


e embora ninguém dispute que parece de facto mais fácil explorar os trabalhadores destas zonas, há quem questione a dita vantagem de um melhor preço eléctrico. Particularmente se nos lembrarmos que, por exemplo na Austrália, os smelters pagam tarifas eléctricas médias na ordem de 2 cUSD/kWh. Ou mesmo 1.4 cUSD/kWh como nos casos de Portland e Point Henry em Victoria. Uma tarifa que é inferior, ou pelo menos igual à que se pratica por aqui.


Se calhar, haverá outras poderosas razões por detrás desta alucinante invasão de smelters. E uma delas cheira-me a evasão à taxa de carbono.


recorde-se que, em finais de 1991, a Billiton - na altura um júnior do clube do alumínio - recebeu um estudo da London Economics quanto ao impacto de uma eventual taxa de carbono. Um estudo cujas conclusões apontavam para novas exigências a quem quisesse andar no business das energias intensivas - incluindo prestar mais atenção à protecção ambiental.


de imediato, o cartel do alumínio associou a taxa de carbono à perturbação dos seus lucros e, tradicionalmente relutantes à internalização dos custos ambientais, os mega-alumineiros passaram então a aventar a hipótese de uma nova geografia dos smelters.


E, se assim o pensou, mais rápido a BHP Billiton o fez.


isto porque, poucos meses depois da publicação do estudo, em Novembro de 1992 a Billiton anunciava a construção de um novo smelter de alumínio em Hillside (Richard's Bay / África do Sul), e o up-grade da velha linha de potes em Bayside. Eficientíssima, as usual, a Billiton completou o projecto em menos de 4 anos, e a 21 Junho 1996 passava a dispor de mais 500 000 toneladas de alumínio vendível - pela primeira vez na costa leste do Índico.


o plantio de smelters de alumínio prosseguiu a ritmo galopante e, em Agosto 2003, a Mozal acrescentava mais 500 000 toneladas anuais ao portfolio índico da Billiton - agora em Beluluane, Moçambique, entre os rios Matola e Movene. Com vista para o mar, e prá lixeira de Mavoco.


entretanto, neste mesmo ano da graça de 2003, Coega (Port Elisabeth) obtinha luz verde para mais um smelter de 460 000 tpa (Alcan/Pechiney) a ser comissionado em fins de 2007.


Desgraçadamente, todos estes fornos de alumínio são alimentados por centrais eléctricas a carvão (RSA) - o que, anualmente, implica mais 12 milhões de toneladas de emissões globais de gases de estufa, além dos potentes perfluorocarbonos e dos CO2s emitidos pelos próprios smelters. Para não falar no perigoso SPL (Spent Pot Lining) que para aqui é deixado em lixeiras.


há tempos, Sergey V. Paltsev (Universidade de Colorado) modelou o abatimento das emissões de CO2 no grupo de países obrigados pelo Protocolo de Kyoto - e o modo como esse putativo abatimento poderia influenciar o aumento de emissões nos países subdesenvolvidos.

Cristalinamente, as simulações concluíam que, em termos geográficos, o ratio de evasão ( leakage ratio) das emissões de gases de estufa em direcção a países como Moçambique e África do Sul poderia atingir níveis na ordem de 25%.


e, mais perturbante talvez, o modelo previa que, no caso das alumineiras, os ratios de evasão seriam ainda mais altos - 50%.


se,

se atender a que, em meros 10 anos, a costa africana do Índico passará a dispor de um parque de smelters quase ao nível da produção australiana de alumínio (1.76 milhões toneladas em 2000), as previsões do modelo Paltsev parecem corresponder à realidade - que nem uma luva.


tal como Sergey V. Paltsev, muitos são os que consideram vital monitorar todas estas evasões. No mínimo porque, para além de doses maciças de poluição, este tipo de mega-indústria pouco traz ao desenvolvimento.


em Moçambique, ao MICOA compete monitorar e gerir as emissões de gases de estufa. Incidentalmente, nunca consegui ver tais contabilidades.


josé lopes


beluluane

dezembro 2003


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Protocolo de Kyoto (prel. ver)