Embora o almanaque do Grande Mandarim de Maputo admita ser difícil estabelecer fronteiras entre a religião, a astronomia e a astrologia chinesas, ele é taxativo quanto à existência de observatórios astronómicos na China em época tão remota como 2650 a.C. (antes de Cristo), o que já então permitia ao filósofo Li Shu escrever sobre os movimentos e significância dos astros.

 

À época, e tal como no caso dos pensadores da Mesopotâmia com quem teriam aprendido alguns princípios de adivinhação astral, o interesse dos filósofos chineses pela cosmologia estava essencialmente centrado na gestão dos calendários agrícolas embora, noblesse oblige, a observação dos astros, e em particular dos eclipses, fosse igualmente um recurso para prever a saúde e desígnios militares dos imperadores.

China

 

Não por coincidência, é chinês o mais antigo registo histórico de um eclipse solar - o Shu Ching - e nele se refere que, em certa ocasião, “o Sol e a Lua não se encontraram de forma harmoniosa “.

 

Apesar de incerta, a data deste eclipse solar é usualmente referida como sendo 22 de Outubro de 2134 a.C. e a história conta que o imperador de então ordenou que Ho e Hsi, dois afamados astrónomos da corte, fossem sumariamente decapitados pelo facto de não terem previsto o eclipse.

 

Naquele oriente de então, acreditava-se que os eclipses solares seriam causados por um invisível dragão que devorava o Sol, pelo que era necessário tudo tentar para que o monstro se afastasse; o povo batia em panelas e rufava tambores, e os arqueiros lançavam setas para os céus, todos tentando assustar o dragão para que a luz do dia pudesse ser restaurada.

 

Esta antiga civilização chinesa começou a sedimentar-se ao longo das margens dos rios Changijang (Yangtze) e Huang He (Amarelo) durante o lendário reino de Xia no segundo milénio antes de Cristo, ao que se seguiu a dinastia Shang (entre 1520 e 1030 a.C.), época em que os chineses já haviam dividido os céus em 28 mansões lunares correspondentes às secções do equador onde a Lua se situaria em épocas de interesse.

 

 

Curiosamente, um osso descoberto num oráculo anterior a 1281 a.C. tem algumas estrelas inscritas pelo seu nome e, num outro registo dessa mesma época, constatam-se referências a um eclipse solar.

 

Séculos mais tarde, por volta do século VII a.C., não é nos astros que este oriental império encontra protecção face aos invasores Zhou, e o seu desmembramento numa série de estados feudais (400-200 a.C.) tornou-se inevitável.

 

Apesar destas convulsões, é desta época o primeiro texto chinês puramente matemático – Zhoubi suanjing; e esse é também o tempo do grande pensador Confúcio (circa 551-479 a.C.), um dos muitos estudiosos obrigados a vivências precárias como conselheiros dos regimes locais.

 

Nesse entretanto, o interesse dos antigos chineses pelas questões cosmológicas não se mostrava marcadamente científico, no sentido do desenvolvimento de sistemas dedutivos e previsionais, e tudo indica que Confúcio pouco fez para alterar a situação. Na verdade, Confúcio parecia interessar-se mais com os problemas dos homens na Terra, e apenas escreveu um capítulo sobre o modo como a harmonia humana se relacionaria com a harmonia natural do mundo – a veneração do universo pela veneração da suas partes. Note-se também que, praticamente desde sempre, raramente os chineses antigos se referem a um Deus para além do mundo, ou mesmo a um arquitecto do mundo. O Céu era o seu Deus superior, e os imperadores, como filhos do Céu, seriam os chefes religiosos.

 

Infelizmente, muito se terá perdido da milenar história da astronomia chinesa e poucos são os textos dedicados à astronomia que sobreviveram aos tempos porque, tal como muitas outras histórias anos depois, esta foi uma história que a catástrofe fundamentalista várias vezes visitou ao longo dos séculos.

 

Por exemplo, o despótico imperador Shih Huang-ti da dinastia Ch’in (227-207 a.C.) ordenou uma desenfreada queima de livros em 213 a.C., pelo que os estudiosos do período seguinte (Han, 206 a.C. – 220 d.C.) foram forçados a transcrevê-los de memória ou apenas com base nos escassos fragmentos que sobreviveram ao tirano.

 

Apesar disso, alguma desta memória transcrita mostra que a sociedade chinesa terá sido das primeiras a utilizar conceitos e princípios que ainda hoje perduram, e disso são exemplo dois textos escritos durante o período Han: o Chou Pei Suan Ching (A Aritmética do Gnômon e os Caminhos Circulares do Céu) e o Chiu Chang Suan Shu (Nove Capítulos sobre a Arte Matemática).

 

Chou Pei Suan Ching é datado como anterior ao terceiro século a.C. e contem vários princípios matemáticos modernos, tais como a redução de fracções ao mesmo denominador comum, e várias demonstrações geométricas; o texto explicita ainda um rigoroso processo de cálculo das raízes quadradas de números.

 

Chou Pei apresenta igualmente a mais antiga demonstração chinesa da teoria de ângulos rectos através do diagrama hsuan-thu, muitos séculos antes de a Pitágoras ter sido atribuído o famoso teorema. E, já agora, a figura ao lado refere-se ao famoso problema do bambu quebrado, cuja aplicação na associação geométrica de quadrados, popularizada como chi-chu (a montagem vertical de quadrados) viria a ser crucial na engenharia chinesa.

 

O Chiu Chang Suan Shu (Nove Capítulos sobre a Arte Matemática), o outro texto do mesmo período Han (século III a.C.), acabaria por ter enorme influência nas matemáticas da Ásia.

Provavelmente iniciado por Chang Tshang com base em outras obras existentes, este trabalho focava-se em matemáticas aplicadas à engenharia e administração e incluía nove distintos capítulos sobre impostos (chun shu), trabalhos de engenharia (shang kung), medição de terras (fang thien), entre outras matérias, num total de 246 problemas-tipo envolvendo o pagamento de gado, pesos e medidas, moeda e taxas, construção de canais e sistemas de equações lineares (fang chheng).

 

Mais tarde, em meados do ano 90 a.C., Ssuma Chhien – um astrónomo da mais alta hierarquia do Estado – escreveu em Shih Chi (Registo Histórico) um capítulo dedicado à revisão das doutrinas astronómicas contemporâneas, incluindo tópicos sobre meteorologia e, desde então, as histórias oficiais das dinastias passaram a incluir capítulos dedicados à astronomia contendo instruções de cálculo de posições planetárias e de eclipses lunares usando períodos sinódicos.

 

Incidentalmente, convém lembrar que os pontos negros do Sol (sunspots), que os europeus só 1600 anos depois descobririam telescopicamente, seriam já referidos na China no tempo de Liu Hsiang, no ano 28 a.C. … ou talvez mesmo antes disso.