Mas, tal como noutros filmes ambientais, pírrica poderá ter sido esta vitória da Matola e, à imagem de um outro tango em Paris, na Matola dançava-se com muita manteiga de amendoim já que eram bastas as evidências que entretanto surgiram - do relatório Scalia e outras - indicando que, durante os anos em que se travava a batalha Matola, uma teia de eco-empresários usava os subterrâneos do corredor Maputo-Boane para efectuar descargas de tóxicos a céu aberto - particularmente a partir de 1997.

 

Tanto assim que, em Outubro 2000, e poucos dias após o moçambicano anúncio sobre o recuo no caso Matola, o jornal argentino El Diario (Morón) passava a revelar novos detalhes sobre a International Waste Group e a rota Maputo-Boane.

 

El Diario publicava então os termos de um acordo estabelecido entre a subsidiária em Dublin da empresa argentina International Waste Group com a Eco Group Management SRL, numa investigação que era confirmada, quase em simultâneo, pelo semanário italiano Famiglia Cristiana.

 

Segundo o aludido contrato, a empresa argentina International Waste Group (IWG) propunha-se despejar em Moçambique, em parceria com a moçambicana AMODEL Lda, qualquer coisa como 25 mil toneladas de resíduos tóxicos por mês, durante um período de pelo menos um ano.

 

Na operação, a tonelada de lixo era cotada a US $300 e, se fossem 12 os meses fiscais da operação, isso significaria uma golpada de USD 90 milhões por ano. Segundo presumiam os traficantes, em cada partida de lixo os lucros atingiriam 5 milhões USD.

 

Recorde-se agora que em Fevereiro 1996, era esta própria International Waste Group (IWG) quem havia obtido em Moçambique autorizações do MICOA (Ministério da Coordenação Ambiental), do MPF (Ministério do Plano e Finanças) e do CPI (Centro de Promoção de Investimento) para um projecto dito de Recuperação de Lixo. E foram certamente estas autorizações que permitiram à IWG obter rapidamente um alvará argentino como armazenista e exportador de resíduos perigosos ... e em tempo recorde.

 

Com os corredores da argentina Secretaría de Medio Ambiente franqueados pelo filho de Carlos Menem, a 25 Setembro 1996 o arquitecto António Aguirre obtinha o alvará da IWG, sob o confidencial expediente 1898/96 - no processo da transa, a Rua Almirante Brown, 927, Moron, Argentina, era designada como sede da International Waste Group numa morada de negócios partilhada com crematórios privados desta mesma rede.

 

Oficialmente, a racional do negócio em Moçambique seria a recolha e tratamento de lixos. E se a merda de cá não chegasse para rentabilizar fornos incineradores, o que havia a fazer era importá-la - segundo eles, o importante era a escala das suas transas.

 

Por intrigante coincidência, começava em 10 Maio 1996 e agora em Moçambique, uma frenética e globalizante campanha de marketing com vista à celebração de acordos bilaterais para importação de lixos, incluindo contactos oficiais com representações locais de Itália, Argentina e Espanha.

 

Entretanto, de acordo com o relatório Scalia, ao projecto Recuperação de Lixo havia sido atribuída uma concessão de 150 hectares em Boane, junto a uma antiga zona extractive dado que, segundo os traficantes, a natureza rochosa dos solos proporcionava a instalação de um intoxicante incinerador e respectiva mega-lixeira.

 

As investigações sobre o tráfico de lixos prosseguiam por todos os lados e em Outubro 2001 o argentino Canal 13 (Telenoche Investiga) revelava novos detalhes do puzzle das ecomafias.

 

Perante uma câmera oculta do Telenoche Investiga, três mosqueteiros do crime argentino confessam a sua participação em diversas golpadas, incluindo o tráfico de lixo internacional, e um dos entrevistados não era outro senão o arqui-traficante António Aguirre, da International Waste Group - sócio de crematórios em Morón e San Isidro, para além das empresas CETRA e Ecolink.

 

Sem se aperceber que estava a ser filmado, este arquitecto da International Waste Group admitia que em Boane não se previa nada de extraordinário - apenas um ajuste das terras, dos ares e dos camponeses locais aos costumes indígenas.

 

As imagens do Canal 13 são entretanto apimentadas com referências a Adam Kashoggi (Irangate) e a bacanais em Marbella promovidos por um elusivo traficante sírio - Monser Al Kassar, de seu nome. E, por bizarra ironia, até mesmo um tal Bin Laden é por eles referenciado como parte do negócio dos lixos.

 

Nesta transa, o traficante sírio encarregar-se-ia de gerir os navios que, sulcando os portos do mundo, baldeariam em Maputo resíduos tóxicos e escória radioactiva com destino a Boane. Estranhamente, o Malawi começava a ser referido nos corredores da malandragem como um outro potencial destino.

 

Mas, bizarrices à parte, o importante era que as imagens permitiam melhor perceber o modus operandi de um tráfico hediondo - armas, drogas, dinheiro sujo e lixos tóxicos-, e, no caso do puzzle dos tóxicos, a International Waste Management  (IWG) surgia como pivot da operação.

 

Mais tarde, e com a credibilidade que merecerão suas palavras, o arqui-traficante Aguirre admitiu nunca ter desembolsado os 3 milhões USD previstos no contrato que a IWG havia estabelecido com a parceria moçambicana - e que por isso se teria esfumado o contrato.

 

Porém, alguns cínicos presumem que, provavelmente, esta Ecomafia se julgava no direito de beneficiar dos fundos de ajuda internacional a Moçambique para que se desse escala e eficiência à incineração, mas que, por alguma razão, não os conseguiu.

 

Porém, talvez Boane não tivesse sido o único caso de comércio de perigosos tóxicos já que, em Março 1998, e a propósito dos crimes da ditadura militar argentina, o jornal espanhol El Pais reportava uma petição da central sindical CTA ao procurador espanhol Baltazar Garzon em artigo que viria a motivar novas investigações sobre ditaduras e vários outros pesadelos tóxicos em Moçambique, como por exemplo aquele que o ubíquo Greenpeace passava a insinuar.

 

Segundo o Greenpeace, numa solicitação de 1998 que eu decerto subscreveria, o governo moçambicano havia obtido assistência de Itália para que se pusessem em segurança alguns resíduos radioactivos abandonados por soviéticos aquando de prospecções mineiras em Nampula e Tete (espectros gamma e neutrónico).

 

Até aqui, para mim tudo bem - a coisa seria apenas um trivial e croquetes de atribulados investimentos -, e, tanto quanto se sabe, o resgate e armazenagem desses resíduos parece ter decorrido satisfatoriamente.

 

Mas o problema é que, segundo o Greenpeace, nesse mesmo 1998 o governo moçambicano teria crescido em bizarrias e passara a solicitar uma adicional assistência italiana para a construção de um depósito de material radioactivo destinado a acolher escórias internacionais; o depósito seria do mesmo tipo do caso anterior, mas agora num outro local subterrâneo. Tudo isto, num Moçambique que não produz tais resíduos.

 

Acresce que, para além de referências aos mentores do projecto de despejo, o Greenpeace alegava também que, em 1999, a venerável ENEA (Itália) teria já contratado a sua participada Nucleco S.p.A para a empreitada de construção desse depósito de escórias radioactivas.

 

continua (click & leia mais)

 

o último tango em Boane ?

 

Mapa Greenpeace

 

Resíduos tóxicos

xitizap # 1

hasta siempre Ilaria Alpi

ecomafias nas rotas do Índico

o relatório Massimo Scalia e Moçambique

a batalha da Matola

o último tango em Boane?

confesso-te Ilaria