numa Europa do século XVI

 

 

em que os poderes religiosos permaneciam ainda arreigados às velhas tradições aristotélicas, o Almagest de Ptolomeu continuava posicionar-se como a fonte primária da astronomia.

 

De facto, o velho tratado parecia imune à emergência de culturas e ciências alternativas e, não por acaso, esta nova vaga de informação indiciava perigosas contradições para os poderosos dos regimes.

 

Na verdade, apesar de os novos conceitos, instrumentos, tabelas trigonométricas e observações astronómicas se mostrarem tecnicamente cruciais, como por exemplo no caso das grandes navegações europeias, o facto era que essas marés de novo conhecimento abalavam cada vez mais algumas das mais estabelecidas verdades desses sistemas – sobretudo a nível teológico.

 

Desde há 1300 anos que, para além das complicações inerentes aos epiciclos, um dos problemas críticos do sistema ptolomaico relacionava-se com o modo como deveria variar o tamanho aparente dos astros. O caso mais imediato, porque mais à vista, era o da Lua e Nicolau Copernicus (1473-1543) decidiu analisar melhor o assunto.

 

Copernicus fora educado na prestigiosa Universidade de Cracóvia, tendo igualmente estudado em Itália antes de assumir o seu cargo como Cânone de Frauenberg, uma pequena cidade da costa báltica.

 

Quando reinterpretou o problema da variação do tamanho aparente dos astros, Copernicus concluiu que se impunha um corte epistemológico com as teorias geocêntricas vigentes e, literalmente, a revolução que se seguiu moveu os Céus e a Terra.

 

Embora continuasse a adoptar uma concepção eminentemente ptolomaica quanto à circularidade das órbitas planetárias, e mesmo quanto aos próprios epiciclos, Copernicus passa a propor um sistema heliocêntrico - um universo centrado no Sol. E este era um facto que, por si só, representava uma imensa revolução!

 

O sistema concebido por Copernicus predizia correctamente, a partir do Sol, a ordem das órbitas planetárias e tornava possível estimar a distância relativa de cada planeta ao Sol. Mais ainda, a partir de Copernicus, o aparente movimento retrógrado dos planetas passava a ser parcialmente explicado em termos do seu movimento relativamente a uma Terra que também se movia.

 

O seu grande trabalho De revolutionibus orbium coelestium (Sobre Revoluções das Esferas Celestes) foi publicado no ano de sua morte, 1543, e com muita relutância por sua parte. As ideias propostas neste trabalho haviam sido prefiguradas em Commentariolus, um manuscrito seu do início da década de 1510, que Copernicus havia distribuído apenas a um reduzido círculo de colaboradores. E esses eram uns comentários onde ele admitia que o seu objectivo seria, não a substituição do modelo ptolomaico em si, mas antes e apenas torná-lo mais perfeito, mais Grego !

 

Os Commentariolus eram um mero esquisso conceptual que Copernicus havia prometido desenvolver, mas quis o destino que em Copernicus tivesse crescido uma sistemática relutância em publicar os seus trabalhos - mesmo que a isso o encorajassem as autoridades da Igreja próxima e, ironicamente, o próprio Vaticano.

 

E a propósito desta aversão mediática conta-se que, quando convidado a participar no Concílio Lateranense que em 1514 abordaria a reforma do calendário, Copernicus recusa o seminal convite porque, para ele, o calendário não poderia ser adequadamente reformado sem que se conhecesse, com mais segurança, o movimento dos planetas.

 

Para alguns historiadores estas posições sugerem que, de algum modo, a sua aversão mediática se poderia relacionar com a insegurança que Copernicus sentia no edifício científico da sua revolução. Copernicus sabia que se baseava em tabelas astronómicas antigas e que as suas próprias observações não eram suficientemente definitivas. Por outro lado, em princípio, a sua nova mecânica planetária deveria permitir-lhe simplificar o número de ciclos e epiciclos mas, à medida que refinava o seu protótipo, Copernicus afinal constatava a necessidade de mais epiciclos que o próprio Ptolomeu – 40 versus 34; e isto apenas relativamente a 7 astros e à esfera celestial.

 

Para Copernicus a questão tornava-se ainda mais dramática pelo facto de o seu protótipo exigir que os planetas se movessem, não já em torno do Sol, mas antes, em torno de pontos derivados do Sol. E importa aqui admitir que, na verdade, Copernicus não dispunha de nenhuma evidência que realmente lhe provasse que o seu sistema era perfeito, ou sequer melhor que o de Ptolomeu.

 

Infelizmente, Copernicus não viveu o bastante para saber que afinal, por muito inseguro que tudo aquilo lhe parecesse, ele estava muito perto da correcta geometria planetária, e dos focos das elipses.

 

Foi o entusiasmo de Rheticus, um seu aluno, que permitiu vencer a relutância de Copernicus em publicar De revolutionibus no ano de sua morte, 1543, em Nuremberga - na altura, uma cidade luterana.

 

Pouco tempo depois de o livro de Copernicus ter sido sujeito a provas finais, Rheticus mudou-se para Leipzig e a impressão do livro acabou por ser confiada a Andreas Osiander, um dos fundadores do luteranismo. E foi então que um famoso prefácio apareceu inserido na obra; um prefácio que, no essencial, era um aviso ao leitor:

 

 a verdade ou não do sistema de Copernicus não é, em si, uma questão séria: uma comparação entre sistemas diferentes é útil ao se julgar qual deles é mais fácil para se calcular; e os verdadeiros movimentos celestes são para ser decididos por outros critérios filosóficos e teológicos.

 

Em boa verdade, e embora Copernicus também alimentasse algumas dessas dúvidas, conta-se que o prefácio foi abusivamente inserido por Andreas Osiander para apaziguar Martinho Lutero que, na altura, se opunha fortemente à visão de Copernicus.

 

De revolutionibus, por Copernicus, não foi um sucesso científico, e as revolucionárias asserções sugeridas em 1510 nos Commentariolus não apareceram demonstradas em De revolutionibus (1543). Porém, pelo menos com uma certeza se finou Copernicus – a Terra movia-se! O trágico era que ele não havia deduzido nem como, nem porquê.

 

Mas, mesmo sem o desejar, Copernicus havia acendido um rastilho intelectual de explosivas repercussões.