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Há dias, o mandarim concedeu-me uma audiência.
quando me recebeu a meia-escada do seu yamen, de imediato notei que, para além de fivela cinturando a túnica Qilin, o grande mandarim envergava o capacete com rubis.
Tudo me indicava que, de certo modo, ele também atribuía alguma importância ao encontro.
Tive a honra de conhecer o grande mandarim aquando de uma expedição aos eclipses solares; altura em que me confidenciou ser descendente de Ho – um tristemente afamado astrónomo que, por volta de 2134 AC, havia sido decapitado após falhar a previsão do primeiro eclipse solar de que há registo na história—via o Su Ching.
Desde então, e muito de quando em quando, o mandarim concede-me a graça de ser chamado ao grande yamen de Maputo para ouvir mais uma história da milenar ciência da China.
Há tempos, falou-me do sismoscópio de Chang Hêng – a jarra das oito cabeças de dragão e dos oitos sapos. Datado como sendo de 132 AD, ainda hoje ninguém sabe explicar o funcionamento desta primeiríssima tecnologia que é referida como tendo detectado vários tremores de terra a mais de 400 km de distância.
Confesso que, quando lhe pedi a audiência, nunca esperei que fosse desta que o grande mandarim me revelaria os segredos de Chang-Hêng. Mas, no íntimo, no íntimo, sempre pensei que alguma iluminação ele me concederia quanto à detecção e previsão de sismos – um mundo de sombrias incertezas.
Visivelmente bem disposto, o mandarim mandou servir um ginseng on the scotch da sua reserva Panax quinquefolius .
Esplendorosa, a audiência foi quase toda ela preenchida por silêncios … e degustes.
À despedida, e enquanto limpava as lunetas pela enésima vez, disse-me:
josé lopes
no grande yamen de Maputo – abril 2006
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