SIDA

uma vacina GM provoca acusações de racismo ambiental

 

Lloyd Gedye

Mail & Guardian, July 23, 2004

 

 

A África do Sul poderá servir de cobaia na produção e teste de uma controversa vacina contra o HIV-SIDA a ser cultivada em plantas geneticamente modificadas (GM).

 

Mas os ambientalistas locais avisaram que lutarão contra o projecto que, da União Europeia, já recebeu um donativo de 12 milhões de Euros para os próximos 5 anos.

 

O primeiro teste de campo da vacina GM deverá ser levado a cabo na África do Sul devido aos receios de que as plantações possam ser vandalizadas no Reino Unido, segundo reporta o jornal britânico Independent.

 

O Independent refere que: “Preocupações acerca de uma acção directa por parte dos ambientalistas que se opõem às plantações geneticamente modificadas (GM) levou os cientistas por detrás do projecto a colaborarem com um instituto de pesquisa sul-africano que se ofereceu para produzir a primeira plantação na África do Sul.”

 

O instituto em questão é o CSIR (Centre for Scientific and Industrial Research) em Pretoria. O CSIR confirmou que, durante este ano, conduzirá pesquisas relativas a vacinas vegetais no valor de 75,000 Euros.

 

O gestor de biotecnologia vegetal no CSIR, Blessed Okole, descreveu a iniciativa como um projecto “humanitário” com “o objectivo primário de providenciar medicamentos para os países pobres”.

 

Contudo, os activistas locais não parecem tão fascinados. O coordenador do African Centre para a Biosegurança, Mariam Mayet, referiu que se os cientistas europeus acreditam que as experiências na África do Sul se desenvolverão sem oposição, eles que se preparem para um choque”.

 

“E cheira a racismo ambiental re-localizar o projecto na África do Sul porque na Europa os activistas destruirão essas culturas. Lutaremos contra isso.”

 

Muffy Koch, um especialista em bio-segurança actualmente aconselhando o governo sul-africano em matéria de segurança dos organismos geneticamente modificados (GMOs), referiu que, pela primeira vez - e secretamente - este ano estão a ser levadas a cabo algumas experiências devido às subtis ameaças feitas por activistas locais a propósito de “colheitas nocturnas.”

 

O CSIR não necessita de autorização governamental para participar no projecto, mas solicitou ao Departamento de Ciência e Tecnologia fundos adicionais.

 

O departamento providenciou suporte financeiro para a visita do Professor Paul Christou, um membro dirigente do consórcio Pharma-Planta, com vista a explorar a possibilidade de cooperação entre europeus e sul-africanos.

 

“O principal papel e tarefas do CSIR dizem respeito à transformação genética de milho e tabaco com vacinas experimentais – e criar plantas transgénicas num ambiente controlado com vista à produção de sementes que serão utilizadas no processamento a jusante,” referiu Okole.

 

Espera-se que alguns cientistas europeus dêem início a experimentações humanas da vacina nos próximos cinco anos. A tecnologia, apelidada de “biocultura”  (biopharming), envolve a engenharia genética de plantas que produzam proteínas farmacêuticas e químicos que elas não produzem naturalmente.

 

O consórcio Pharma-Plant desenvolverá o conceito desde a modificação das plantas até à experimentação clínica com o objectivo de produzir vacinas e remédios para as mais importantes doenças incluindo SIDA, raiva, diabetes e tuberculoses.

 

Philip Dale, coordenador de bio-segurança do John Innes Centre em Norwich (Inglaterra) disse que vários sistemas de produção diferentes estavam a ser considerados, incluindo o uso de milho e tabaco. Uma decisão final quanto à planta que funcionará como hospedeira não deverá ser tomada antes que decorra um ano após o início projecto. “Nós também consideraremos cuidadosamente aonde basear os locais de produção. Já temos um número de locais em mente, quer na Europa quer na África do Sul.”

 

Estas culturas GM terão os seus genes ligados a material genético obtido a partir de bactérias e de vírus causadores de doenças por forma a produzirem protótipos de vacinas. A partir de colheitas dessas culturas, e após purificação das proteínas, conhecidas como anti-genes, os cientistas esperam produzir vacinas em massa – e a uma fracção dos custos actuais.

 

O coordenador científico do projecto, Julian Ma, da St George’s Hospital Medical School em Londres, refere que levará cerca de dois anos a desenvolver a técnica após a colheita da primeira cultura em 2006.

 

O coordenador administrativo, Professor Rainer Fischer, acrescentou: “Há uma desesperada necessidade de encontrar formas de produzir medicamentos modernos em quantidades suficientes e a um custo que os torne disponíveis para toda a gente. Nós acreditamos que a utilização de plantas para produzir fármacos pode representar uma contribuição significativa.”

 

Julian Ma disse, “O custo de desenvolver produtos derivados de plantas pode ser 10 a 100 vezes menor do que os de produção convencional.”

 

Andrew Tanyton, porta voz da Safe Food Coalition, um ferrenho oponente dos GMOs na África do Sul, afasta a reivindicação de que um desejo em reduzir custos esteja por detrás do uso de plantas na produção de vacinas.

 

“Estes medicamentos serão patenteados. Quando chegarem ao mercado, não haverá competição e por isso os preços serão tão altos como os de hoje. Não haverá benefícios para o consumidor,” diz ele.

 

“Não é preciso criar culturas GM; é possível desenvolver medicamentos utilizando tecnologia GM por modificação de bactérias nos laboratórios. Não há necessidade de lançar estas culturas no ambiente. “

 

Taynton acrescentou que as culturas GM têm sido rejeitadas na Europa. “Para manterem a indústria de biotecnologia a flutuar, visam-se agora os países com uma mais laxa legislação biotecnológica.”

 

Uma das principais preocupações quanto à nova tecnologia reside no facto de uma companhia americana, Epicyte, deter uma patente-chave na produção de anticorpos em plantas. “Quaisquer benefícios deverão chegar aos que deles precisam, ao invés de apenas servirem para encher os bolsos das indústria biotécnicas e farmacêuticas,“ diz Clare Oxborrow, uma militante dos Friends of the Earth.

 

“Dado risco de contaminação, julgamos que as culturas alimentares não deverão ser utilizadas para produzirem estas vacinas.. Nos USA, já houve culturas alimentares que tiveram de ser destruídas devida a contaminações por farmo-culturas experimentais,” Oxborrow disse.

 

Okole referiu que o conselho executivo da Lei GMO (da África do Sul) terá que ser convencido quanto à não existência de riscos de saúde e ambientais, e que as experiências serão geridas por forma a prevenir qualquer imprevista perda de material.

 

tradução livre por xitizap

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